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Virgílio de Morais Fernandes Távora PDF Imprimir E-mail

Virgílio de Morais Fernandes Távora nasceu em Jaguaribe, município que está a 308 km de Fortaleza, em 29 de novembro de 1919, era filho de Manoel do Nascimento Fernandes Távora e de Carlota Augusta de Morais Fernandes Távora.

Descendente de uma das mais tradicionais famílias cearenses ao longo dos anos desempenhou um respeitável papel na política estadual e deu valorosa contribuição para o desenvolvimento do Município de Boa Viagem.

Durante a sua infância teve a oportunidade de acompanhar de perto o envolvimento político de vários de seus familiares, entre eles o de seu pai, que foi interventor federal do Estado do Ceará entre 1930 e 1931.

“Segundo dos três filhos de Dr. Távora e de D. Carlota, viveu uma infância igual a dos meninos das famílias abastadas do Ceará de então. Tão logo recebeu as primeiras noções do mundo circundante, o pequeno Virgílio percebeu o retraimento em que vivia a família. Não freqüentava a sociedade local e à sua casa só iam os parentes e os amigos que não temiam o fato de seu pai ser um homem de posição”. (LINHARES, 1996: p. 21)

A sua vida acadêmica iniciou-se em 1927 no Colégio Santa Cecília, logo depois, em 1929, passou para o Colégio Nossa Senhora das Vitórias até que, em 1930, foi internado no Colégio Militar do Ceará, aonde realizou os estudos secundários, e logo em seguida, em 1936, ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, influenciado pela carreira militar do seu tio, o Cap. Juarez do Nascimento Fernandes Távora.

Recebeu formação complementar na Escola de Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, aonde foi diplomado como engenheiro. Graças ao seu bom desempenho teve uma ascensão meteórica na carreira militar, em 1939 tornou-se 2º tenente e, em 1941, já era promovido a 1º tenente.

“Era o primeiro aluno da turma e, como já se disse, não saiu aspirante, saiu diretamente segundo tenente, como acontecera antes, também, com Luís Carlos Prestes”. (LINHARES, 1996: p.32)

Em 1944, no auge da II Guerra Mundial, foi promovido a capitão, em 1950 a major, em 1955 a tenente-coronel e em 1960 a coronel, posto que encerrou a sua brilhante carreira no Exército Brasileiro passando para a reserva.

Iniciou as suas atividades políticas em outubro de 1950 colocando o seu nome no pleito eleitoral para Deputado Federal pelo Estado do Ceará na legenda da União Democrática Nacional, a UDN.

“Decidi com grande pesar, após longa meditação, tomar um rumo diverso do da minha carreira de origem. Em junho de 1950 entrei em gozo de licença-prêmio a que fazia jus. Consciente de que essa atitude significava um adeus às Armas”. (LINHARES, 1996: p.63)

A eleição ocorreu em 11 de março de 1951 e ele recebeu 21.309 votos, sendo o Deputado mais bem votado do seu partido. No pleito seguinte, o de 03 de outubro de 1954, conseguiu se reeleger Deputado Federal na mesma legenda, obtendo nessa oportunidade o montante de 25.471 votos.

No início do ano de 1953, contraiu matrimônio com Luíza Morais Correia Távora e com ela gerou dois filhos.

“O casamento, como todos os fatos da vida de Virgílio, foi um acontecimento concorridíssimo, deixando de ser um mero registro social para se transformar numa demonstração de prestígio político. Acorreu no Rio de janeiro, sendo o civil no apartamento do Deputado Edilberto de Castro, na Avenida Atlântica, um dos endereços mais nobres da capital da República. Já o religioso no dia seguinte, 05 de maio de 1953, no majestoso Palácio São Joaquim, tendo por oficiante Dom José Távora, bispo auxiliar do Cardeal do Rio, e seu primo”. (LINHARES, 1996: p.98)

Em 16 de novembro de 1953, na cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, foi eleito diretor da Confederação Rural Brasileira, órgão que tinha a finalidade de fomentar o desenvolvimento agrícola do país.

Em fevereiro 1956, descontente com a eleição a presidência da república de Juscelino Kubitschek, juntamente com o coronel Fídeas Távora, seu primo, apoiou ostensivamente o levante militar que envolveu alguns oficiais da Aeronáutica que se apoderaram da base aérea de Jacareacanga, no Estado do Pará.

Em 29 de setembro de 1957 a União Democrática Nacional lançou o seu nome como candidato ao governo do Estado do Ceará e daí partiu para uma intensa propaganda de divulgação do seu nome.

As eleições aconteceram em 03 de outubro de 1958 e lhe renderam a confiança 248.241 eleitores contra os 279.449 de José Parsifal Barroso. Em Boa Viagem recebeu apenas 1.620 votos contra os 2.423 de seu adversário.

Entre 1957 e 1959 ocupou a vice-presidência do diretório nacional da União Democrática Nacional.

Em janeiro de 1959, indicado por seu partido, deixou a Câmara Federal ao final da legislatura e atuou como representante da oposição no conselho de administração da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap, companhia criada pelo Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira para a construção de Brasília, futura capital federal.

Ainda nesse ano tornou-se membro do conselho nacional do Serviço Social Rural, foi reeleito vice-presidente do diretório nacional de seu partido e com a proximidade das eleições presidenciais foi designado secretário-geral da comissão nacional pró-candidatura do advogado e professor Jânio da Silva Quadros.

Sob o governo parlamentarista de João Belchior Marques Goulart, iniciado em setembro de 1961, foi nomeado por indicação de seu partido como Ministro de Estado, assumiu a pasta da Viação e Obras Públicas no gabinete parlamentarista de Tancredo de Almeida Neves.

Em janeiro de 1962 inaugurou o sistema de telex entre os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, criou o Conselho Nacional de Transportes e, na qualidade de Ministro, intensificou o ritmo de trabalhos no Polígono das Secas, como também percorreu grande parte do Nordeste nele incluída.

No pleito eleitoral de 07 de outubro de 1962 finalmente conseguiu eleger-se Governador do Estado do Ceará na legenda da coligação “União pelo Ceará”, aliança política que reunia em torno de si a União Democrática Nacional, o Partido Social Democrático e o Partido Trabalhista Nacional.

Essa coligação pacificou o cenário político estadual e lançou as bases do que seria a Aliança Renovadora Nacional, a ARENA, após o decreto do bipartidarismo via Ato Institucional Número Dois que aconteceu em 1965.

Recém eleito deu ampla cobertura à campanha do plebiscito empreendida pelo presidente João Goulart em favor do retorno ao presidencialismo, preconizando também a adoção dos princípios capazes de ensejar as reformas propostas desde a campanha de Jânio Quadros.

Embora partidário de algumas medidas empreendidas pelo governo Goulart, Virgílio Távora apoiou o movimento político-militar de 31 de março de 1964.

Em seu governo a energia da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso chegou progressivamente a todo o Estado e assim foi incrementada a infraestrutura local e a implantação do Distrito Industrial. Em sua gestão foi aplicado o chamado Plano e Metas, o PLAMEG.

Em 1966 voltou a Câmara Federal para mais um mandato, dessa vez na legenda da Aliança Renovadora Nacional e, ao lado de César Cals de Oliveira Filho e de José Adauto Bezerra formou o triunvirato de coronéis que dominou o cenário da política estadual cearense durante todo o Regime Militar.

Durante a legislatura que se iniciou em fevereiro do ano seguinte tornou-se membro das executivas nacional e regional de seu novo partido. No pleito eleitoral de novembro de 1970 elegeu-se Senador pelo Estado do Ceará recebendo 246.029 votos, sempre na legenda da Arena, obtendo a maior votação do Nordeste.

Em janeiro de 1971 deixou a Câmara dos Deputados e imediatamente assumiu a sua cadeira no Senado.

Nessa legislatura foi vice-presidente da Comissão de Finanças e membro das comissões de Segurança Nacional, de Relações Exteriores e de Transportes do Senado.

No governo do General Emílio Garrastazu Médici tornou-se o vice-líder da Arena e o encarregado da defesa da política econômica do governo federal no Senado.

Participou da campanha em defesa da política nuclear brasileira, adotada desde 1969 com a posse de Antônio Dias Leite no Ministério de Minas e Energia, tendo ainda tomado parte nas negociações realizadas, em 1973, para a concretização dos termos em que se consubstanciou o Acordo Nuclear entre Brasil e Alemanha.

Em abril de 1978, aproximando-se as eleições, foi indicado pelo Presidente Ernesto Beckmann Geisel como candidato ao governo do Ceará. Para voltar ao cargo precisou superar a forte oposição de seu antigo adversário, o ex-governador César Cals.

No pleito indireto de setembro do mesmo ano foi eleito governador em substituição a José Valdemar Alcântara e Silva. Deixando o senado em fevereiro de 1979 assumiu o governo em 15 de março.

Em novembro de 1979 foi extinto o bipartidarismo e aconteceu a reformulação partidária no país. Nesse intuito filiou-se ao Partido Democrático Social, o PDS, partido governista.

Em 02 de agosto de 1980, projeto do Vereador Raimundo de Oliveira Mota, na gestão do Prefeito Benjamim Alves da Silva, através da lei nº 347, recebeu o título de cidadão boa-viagense por conta dos vários serviços prestados a nossa comunidade.

Em maio de 1982 desincompatibilizou-se do cargo de governador para se candidatar, no pleito de novembro, a uma cadeira no Senado, ainda nessa eleição lançou Carlos Virgílio Augusto de Morais Távora, seu filho, como Deputado Federal pelo PDS, que graças ao prestígio do pai obteve 91.162 votos.

Nesse pleito recebeu 1.120.069 votos, conseguindo se eleger Senador da república na legenda do PDS e assumiu a cadeira no Senado em fevereiro de 1983.

Em novembro de 1987 votou na Comissão de Sistematização da Assembleia Nacional Constituinte a favor dos cinco anos de mandato para o Presidente José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney.

Em março de 1988, na sessão que decidiu o sistema de governo brasileiro, votou a favor do presidencialismo e tomou parte ainda nos debates e trabalhos que definiram o conceito de empresa nacional.

Em 03 junho de 1988, sofrendo de câncer na próstata, foi internado e faleceu no Hospital Albert Einstein em São Paulo, às 11 horas e 35 minutos.

Ao longo de sua vida e ao lado de sua intensa carreira Virgílio Távora recebeu diversas homenagens, entre elas podemos mencionar: Medalha Duque de Caxias, Medalha de Bons Serviços, Medalha Marechal Hermes, Medalha Mauá, Medalha do Pacificador, Medalha da Ordem do Tesouro Sagrado, Medalha do Mérito Nacional, Medalha do Mérito Agrícola, Medalha de Tamandaré, Medalha do Patriarca, Medalha Cândido Rondon, Medalha José Bonifácio, Medalha do Sesquicentenário do Senado Federal, Medalha Bárbara de Alencar, Medalha Nilo Peçanha, Medalha da Abolição, Medalha da Escola Técnica Federal do Ceará, Medalha da Ordem do Mérito Militar e a Medalha da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho.

Recebeu título de “Doutor Honoris Causa” da Universidade Federal do Ceará, da Faculdade de Filosofia do Ceará e da Escola de Administração do Ceará.

Deixou-nos várias publicações, entre elas citamos: Acordo sobre a Cooperação no Campo dos Usos Pacíficos da Energia Nuclear assinado entre a República Federativa do Brasil e a República Federal da Alemanha. Brasília, Senado Federal, 1976; Contas do Presidente da República. Brasília, Senado Federal, 1978; Em defesa da Política Nuclear Brasileira. Brasília, Senado Federal, 1973-1974; Petrobrás. Brasília, Senado Federal, 1975; Pronunciamentos. Brasília, Senado Federal, 1976; II Simpósio de Estudo de Problemas Brasileiros: Acordo Nuclear Brasil - Alemanha. Fortaleza, Unifor, 1977; Trabalhos Legislativos, 1971; Discursos. Brasília, Senado Federal, 1972; Trabalhos Legislativos, 1971 e por fim, Discursos. Brasília, Senado Federal, 1972.

Seu nome foi homenageado ainda em importantes obras em todo o Estado do Ceará, entre eles podemos citar: Autódromo Internacional Virgílio Távora, no Município de Eusébio; Estádio Municipal Virgílio Távora, no Município de Crato; Avenida Virgílio Távora, em seu município natal, Jaguaribe; Avenida Virgílio Távora, antiga Estados Unidos, em Fortaleza e ainda o Centro Administrativo Governador Virgílio Távora, sede do Governo Estadual que é mais conhecido como Cambeba, além de várias escolas da rede estadual.

Em Boa Viagem o seu nome recebeu homenagem no campo denominado de Aeroporto Coronel Virgílio Távora e no Centro Administrativo Governador Virgílio de Morais Fernandes Távora, localizado na Praça Monsenhor José Cândido de Queiroz Lima, nº 100, no Centro da cidade, através da lei nº 465, de 01 de outubro de 1988, na administração do Prefeito Benjamim Alves da Silva.

 
José Vieira de Lima PDF Imprimir E-mail

José Vieira de Lima nasceu no Município de Catolé do Rocha, no Estado da Paraíba, no dia 28 de agosto de 1896, era filho de Quintiliano Vieira de Lima e de Felisbela Vieira de Freitas. Para falarmos de sua existência é de suma importância que compreendamos alguns dos fatos que precederam a sua ligação com o nosso município.

Como sabemos a vida do nordestino está fortemente ligada ao fenômeno natural das secas, nossa região é conhecida em todo o país, senão no mundo, pelos constantes deslocamentos de sua população, que muitas vezes, por falta de opção, buscam refúgio nos grandes centros do país. Preocupados com isso, durante muito tempo, nossos governantes colocaram como pauta de suas ações a solução desse grave problema. Muito já se fez e vem se fazendo, ao longo dos anos, para amenizar o sofrimento da população nordestina brasileira.

Entre os Estados do Nordeste a Paraíba é um dos menores, mas, em compensação, era um dos mais populosos, possuía uma alta densidade demográfica e uma pequena área territorial. Muitos paraibanos, a partir do final do século XIX, saíram do seu Estado arriscando conseguir encontrar um lugar melhor para viver.

Desde o final da República Velha o Governo Federal tentava amenizar os efeitos da desigualdade social entre as regiões de nosso país. Ambicionávamos seguir o exemplo de nosso grande “irmão” do Norte, os Estados Unidos da América, que conseguiu a façanha de unir o oceano Atlântico ao Pacífico através da estrada de ferro.

O Brasil traçava planos de ligar todas as suas regiões através da malha ferroviária, o trem seria o condutor de nosso desejado progresso.
Em 1919 houve uma feroz estiagem no sertão nordestino. Esse fato motivou ao jovem José Vieira de Lima a aventurar-se pelo Brasil em busca de trabalho, desejava conhecer o Estado do Pará e o famoso rio Amazonas.

Movido pelo interesse de fazer fortuna saiu de sua terra natal e foi para São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, no intuito de embarcar no trem que seguia para Fortaleza, no Ceará, na intenção de encontrar um primo, sobrinho de sua mãe, que era coletor da alfândega no porto, e que, imediatamente, o embarcaria em um navio para o destino previamente desejado.

Meu pai, José Vieira de Lima, era um paraibano muito tranquilo e calmo que chegou a Boa Viagem, vindo de Catolé do Rocha, no Estado da Paraíba, pelos idos de 1921. Trabalhando na antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Chegou a Boa Viagem trabalhando como agrimessor num grupo de servidores que estudavam uma estrada que deveria ser construída ligando o Município de Tamboril ao Município de Boa Viagem. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 27-28)

No Pará, durante dois anos, viveu na cidade de Santarém, a Pérola do Tapajós, até que, em 1921, não sabemos por qual motivo, resolveu retornar de navio de Belém para o Ceará.

Em Fortaleza decidiu passar novamente na casa de seu primo, que era localizada na Vila Romero, nº. 71, Centro, aonde em seguida tomaria condução para a casa de seus pais no interior paraibano.

Lembramos que, embora tenha nascido em Catolé do Rocha, José Vieira de Lima tinha fortes ligações com o Estado do Ceará. Muitos anos antes o seu bisavô, José Alexandre de Freitas Filho, que era natural da região da serra do Baturité, havia sido acusado de cometer um crime e por conta disso migrou com parte de seus filhos para o Estado da Paraíba e lá encerrou os seus dias.

Em Fortaleza, depois de alguns dias hospedado, enquanto aguardava o transporte para a sua terra natal, encontrava-se na rua observando as novidades do comércio local quando foi surpreendido por um assalto, perdeu toda a fortuna que foi ganha em sua aventura no Norte.

Sem dinheiro, triste por perder as suas economias, solicitou um empréstimo ao seu primo para que pudesse retornar para a casa de seus pais. O dinheiro emprestado seria devolvido posteriormente quando chegasse à Paraíba através de uma carta.

Seu primo, José Carneiro Neto, mais conhecido como Dé Carneiro, era homem influente, possuía prestígio e acesso direto ao Dr. Justiniano de Serpa, Governador do Ceará.

Na época o Governo do Estado estava realizando diversas obras com o intuito de amenizar o problema da seca e estava precisando de pessoas corajosas e disponíveis para as frentes de trabalho no sertão. José Carneiro fez-lhe a proposta de arrumar-lhe um emprego e a oferta foi aceita sem hesitação.

No inicio da década de 1920 o Município de Boa Viagem não sonhava em possuir uma estrada com manta asfáltica, o acesso a sua sede, em todas as direções, era feito através de estradas carroçáveis. Para se ter uma idéia Carvalho Filho (2008: 52) nos informa que, nessa época, “a viagem entre Boa Viagem e o Quixeramobim era feita em dois dias”.

Pensando nisso o Governo Federal, através do Instituto Federal de Obras Contra as Secas, o IFOCS, equivalente ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o DNOCS, em nossos dias, e em parceria com o Estado, verifica a possibilidade de ampliar a estrada de ferro que saia da cidade do Quixeramobim e se estenderia até o Município de Tamboril. Entre as duas estações o Município de Boa Viagem seria uma parada certa.

O trem facilitaria o transporte de nossas riquezas, escoaria a produção de algodão e de outras sementes para a capital, Fortaleza. Havia ainda, por conta das secas, uma grande quantidade de reservatórios de água sendo construídos pelo interior do Estado.

Costumeiramente o governo enviava equipes de técnicos no intuito de fazer estudos e verificar a viabilidade desses projetos. Entre esses técnicos enviados ao sertão encontrava-se José Vieira de Lima, que trabalhava no ofício de agrimensor, equivalente a topógrafo em nossos dias.

Quando estava no Município de Tamboril fazendo os estudos topográficos para a instalação da estrada de ferro foi enviado pelo seu superior a fazer estudos para o represamento de um riacho e a futura construção de um açude em Boa Viagem na propriedade de um próspero agropecuarista. 

Nessa oportunidade ficou hospedado, juntamente com toda a sua equipe, na fazenda Triunfo, residência de Teófilo da Costa Oliveira, conhecido como Teófilo Amaro. Dessas paradas para o descanso surgiu o mutuo interesse entre o visitante e a bela filha de seu anfitrião, Adília Maria de Oliveira.
De início Teófilo Amaro e a sua esposa, Francisca Juliana da Conceição, não aprovavam o namoro, temiam que o seu misterioso visitante fosse casado ou um jagunço ou quem sabe um desertor do cangaço, algo comum na época.

José Vieira de Lima era um jovem bem afeiçoado, de boa aparência, costumava sempre andar bem vestido. Certo dia, não sabemos se por esquecimento ou de propósito, deixou o seu paletó no encosto de uma cadeira na casa de seu anfitrião, que logo foi revistado pela sua curiosa futura consorte.

Em um dos bolsos do paletó foi encontrada a prova tão desejada, uma carta enviada da Paraíba que fora escrita por sua mãe. Sem demoras Adília Maria de Oliveira procurou quem soubesse ler, pois queria saber o teor daquela misteriosa carta, pretendia juntar as provas que confirmassem a boa índole de seu amado.

Feliz pela valiosa descoberta e pelo sucesso de sua astúcia a moça chamou ao seu pai e lhe apresentou a preciosa prova, após a nova leitura, feita por Luzia Amaro, irmã de Teófilo, o namoro foi finalmente permitido.

O casamento foi celebrado no dia 29 de outubro de 1922 diante do Monsenhor José Cândido de Queiroz Lima e de toda a comunidade na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.

Alguns dias antes o casal recebeu como presente uma propriedade que serviria para a criação de gado e o cultivo da terra. Teófilo Amaro não queria que a sua filha partisse e sim que o seu genro se estabelecesse no município.

Poucos dias depois da celebração de matrimônio, já em 1923, o novo casal viajou para o Riacho dos Cavalos, José Vieira de Lima tinha interesse em apresentar a sua esposa para os seus pais e também compartilhar das aventuras vividas por ele durante os últimos anos.

Nessa ocasião não deixou de informar aos seus pais das vantagens e da beleza das terras do Ceará, depois de algumas semanas em meio aos seus familiares decidiu retornar para a sua fazenda no intuito de dar continuidade a sua vida, até que, em 1924, tem conhecimento do interesse de seus pais virem morar também na Jóia do Sertão Central.

Durante anos em sua propriedade foi um dos grandes produtores de algodão e milho de nossa região, possuía um invejável rebanho bovino e caprino que lhe davam uma abundância de leite e derivados, mas a fartura de posses não se comparava à bela e valiosa família que construiu com a sua esposa.

Em 1945, depois de anos habitando no Ceará, decidiu entrar na vida pública pleiteando um mandato como vereador, mesmo sabendo dos riscos que corria.

A grande maioria das administrações anteriores, muitas vezes, por falta de recursos, por despreparo dos administradores para o cargo ou por falta de aptidão para as causas populares, pouco realizaram. Ficavam sempre na mesmice, no “feijão com arroz” como de diz. Perdiam boa parte do tempo para atender aos problemas de delegacia, resolver questões de terras que envolviam proprietários rurais, cobrar impostos até de cancela nas estradas e fazer politicagem de baixo nível, que nada rendia para o futuro do município. Fazer política aqui era coisa perigosa. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 52)

Na ocasião de sua decisão a sua posição política não era a das mais fáceis. Nessa eleição, juntamente com José Inácio de Carvalho, apoiou João Barbosa Lima, o Nóca Barbosa, candidato da União Democrática Nacional, a UDN, que não tinha a simpatia da família Araújo, até então a família que dominava o cenário político do município.

Em 28 de dezembro de 1946, conversando sobre as projeções políticas da eleição que se aproximava na residência de José Inácio de Carvalho teve a triste sorte de servir de testemunha de um bárbaro crime que até hoje deixa mágoa no coração de alguns boa-viagenses:

Com os depoimentos da viúva da vítima, da mulher de Caledônio, da filha de Caledônio, de José Vieira de Lima, de Fausto Costa e mais cinco amigos de José Inácio, o major Leite representou o Dr. Lourival Soares, Juiz de Direito, requerendo a prisão preventiva para o autor material, Francisco Pereira Lima e para os autores intelectuais Delfino de Alencar Araújo e Aluísio Ximenes de Aragão. (MOTA, 1995: p. 71)

Apesar do cruel assassinato o resultado do pleito eleitoral não foi outro, em 07 de dezembro de 1947, após uma acirrada campanha, as urnas declararam o seu candidato a prefeito como derrotado e Manoel Araújo Marinho, candidato do Partido Social Progressista, o PSP, como novo prefeito de Boa Viagem.

José Vieira de Lima conseguiu ser eleito para a Câmara municipal, mas desde cedo sabia que o seu mandato seria de oposição ao novo gestor, os desafios não lhe desanimaram e logo pôde colher os frutos de suas posições.

Para o pleito de 03 de outubro de 1950, ainda pela UDN, exercendo um mandato diferenciado dos demais, foi indicado para representar a sua bancada no executivo contra a candidatura do coletor estadual Aluísio Ximenes de Aragão, candidato do PSP.

Nesse pleito os candidatos a prefeito não possuíam vice e ele enfrentaria a corrente política que tinha em suas mãos a máquina administrativa e uma grande e poderosa família.

Em 1950, meu pai era candidato a Prefeito e sofreu várias ameaças, tais como: altas horas da noite bateram nas porteiras, anexas à casa da fazenda. Certamente, eles esperavam que meu pai saísse no escuro, pensando que os animais estivessem fugindo do curral, mas isso não aconteceu. Então eles bateram em uma janela da casa. Meu pai estava armado, dentro da casa; minha mãe acendeu a lamparina e os bandidos fugiram. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 52)

A empreitada dessa eleição foi gigantesca, sem dinheiro e apoio suficiente não conseguiu obter êxito, dos 3.488 eleitores recebeu a preferência de apenas 1.314, Aluisio saiu vitorioso com 2.031 votos. Durante quatro anos, embora sem mandato, permaneceu firme em sua posição de adversário, mas sempre buscando fazer uma oposição inteligente.

Em 1954, ainda pela UDN, entrou novamente na disputa por uma das nove vagas do legislativo municipal. Na ocasião o seu partido coligou-se com o Partido Social Democrático, o PSD, e juntos elegeram a prefeito o agropecuarista Delfino de Alencar Araújo.

Em Boa Viagem a coligação governista era representada pela família “Araújo” sob a liderança do ex-prefeito Manuel Araújo Marinho (PSD) e pelo PSP, presidido pelo prefeito Aluísio Ximenes Aragão. Enquanto as oposições coligadas seguiam o vereador José Vieira de Lima. (MOTA, 1995: p. 11)

Em 1958 o cenário político sofreu algumas modificações, antigos adversários passaram para o campo aliado no intuito de eleger o Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, advogado que foi candidato pelo PSD e era filho de Manuel Araújo Marinho, ex-prefeito do município e importante cabo eleitoral.

Em Boa Viagem, o PSP era liderado pela família Araújo e pela família Ximenes de Aragão. A UDN por José Vieira de Lima. (MOTA, 1995: p. 60)

Nessa eleição novamente o seu nome retornou a Câmara municipal, o povo soube retribuir a confiança a quem os representou durante tantos anos, até que, em 1962, os ventos da política local começam a tomar um novo movimento, dessa vez com um sopro diferente. A paisagem política recebeu novos atores e um deles era o seu filho, José Vieira Filho, o Mazinho.

Foi uma porta aberta para minha candidatura a Vice-Prefeito do município no ano de 1962. Meu pai, que já exercera três mandatos de vereador e em 1950 disputou o cargo de Prefeito Municipal, perdendo para seu compadre Aloísio Ximenes de Aragão, enfrentava alguns descontentamentos dentro do seu partido e estava sem ânimo para continuar na política. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 34)

Em 07 de outubro de 1962 finalmente aconteceu a eleição que sacramentalizou a vitória para prefeito do Dr. Manuel Vieira da Costa, o Nezinho, candidato da UDN que fazia oposição ao governo municipal. Na ocasião, dessa vez pelo PSD, José Vieira de Lima consegue novamente a sua cadeira na Câmara Municipal e contempla a vitória de seu filho e herdeiro político, José Vieira Filho, para o mandato de vice-prefeito.

Houve a eleição e, quando apuraram os votos, o Dr. Manuel Vieira da Costa (Nezinho) venceu o Sr. Deodato por uma diferença de 226 votos. Houve mais de 800 votos nulos do Sr. José Vieira Filho, e consegui vencer o Sr. Aluísio com 77 votos a mais de diferença. Valeu a vontade do povo, sufragando os candidatos, Nezinho e Mazinho, dois primos carnais, embora de partidos e palanques opostos. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 37)

Essa alegria no campo político vem a contrastar com a profunda tristeza acontecida anos antes, em 15 de março de 1960 ele perde a sua companheira e amiga de tantos anos.

Em 02 de outubro de 1962, depois de anos de solidão, agora maduro e com 66 anos de idade contrai núpcias com a jovem Raimunda Iza Fernandes Lemos, de apenas 37 anos, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem em uma celebração dirigida pelo Pe. José Patrício de Almeida e contando com a presença de todos os seus filhos.

Após o casamento, sendo perturbado por alguns problemas de saúde, decidiu mudar-se definitivamente para a sua residência que era localizada na esquina das ruas José Leal e Antônio Domingues, nº. 323, na sede do município, aonde teria maiores possibilidades de assistência médica até que, em 27 de março de 1967, em Fortaleza, vem a óbito vitima de equizema.

Em sua memória, na administração do Prefeito José Vieira Filho, projeto do Vereador Samuel Alves da Silva, através da lei nº 127, de 18 de abril de 1969, foi colocado um busto e o nome de Praça Vereador José Vieira de Lima em um dos principais pontos da sede do município.

Essa praça, por descuido da administração municipal, tendo em vista que poucos possuem conhecimento de sua primeira nomenclatura, projeto do Vereador Antônio Tupinambá de Araújo, recebeu o nome de Praça Capitão José Ribeiro através da lei nº 80, de 28 de maio de 1966, na administração do prefeito Cícero Carneiro Filho e não teve o seu nome alterado por força de lei.

Foram feitas ainda algumas outras homenagens ao seu nome, uma delas através da lei nº 139, de 12 de março de 1970, que deu nome a uma das ruas da sede como também através da lei nº 451, de 06 de outubro de 1987, que deu a nomenclatura ao Parque de Exposições Agropecuárias José Vieira de Lima, todas na administração do Prefeito José Vieira Filho.

 
VI Aulão de Capoeira de Boa Viagem PDF Imprimir E-mail

 
Rua Natanael Alves da Silva PDF Imprimir E-mail

Natanael Alves da Silva nasceu em Pitombeira, zona rural do Município de Boa Viagem, em 14 de setembro de 1944, foi o nono entre os doze filhos do casal Sebastião Alves da Silva e Delfina Vieira da Silva.

Logo que nasceu tornou-se o xodó da casa de seus pais, além de amado era muito agitado e esperto, nessa época a sua mãe e as suas irmãs se dividiam em seus cuidados e nos muitos afazeres domésticos.

Aos oito anos de idade, segundo o relato de alguns de seus parentes, um tombo de rede deixou-lhe consequências graves na audição que o acompanharam durante toda a sua existência.

Outra deficiência não sanada em sua infância e que perdurou pela fase adulta da sua vida foi o problema popularmente conhecido como língua presa.

Na época o nosso município não dispunha de médico apto para realizar a cirurgia de frenectomia lingual e o tempo foi passando e Natanael nunca conseguiu sanar os problemas de dificuldades na fala, todavia isto não o fazia tímido e nem o impedia de ser muito brincalhão e comunicativo.

Em seu lar, em meio às brincadeiras com os seus irmãos, o apelidaram com as poucas palavras que costumava balbuciar, chegando ao ponto de poucos conhecerem o seu nome de batismo, esse apelido carinhoso tornou-se o seu segundo nome, Bobô.

Morando distante da sede e sem condições de frequentar uma escola regular teve a oportunidade de receber instruções elementares de língua portuguesa e matemática com a professora Ana Loureiro.

Em 1956, com 12 anos de idade, depois da morte de um de seus irmãos, seus pais resolveram deixar o campo e passaram a residir na sede do município, nessa época conciliava as atividades do comércio do seu pai no mercado público municipal com as lutas do campo.

Obedecendo ao seu pai, juntamente com os seus irmãos, costumeiramente realizava viagens de bicicleta ou no lombo de algum animal no intuito de cuidar da lavoura ou do gado que possuíam na propriedade em Pitombeira.

Nessa época sua mãe, Dona Delfina, havia contratado os serviços de um fabricante de malas, que era conhecido como Deca Venâncio, para que esse o ensinasse o oficio. Muito curioso e desejando aprender uma arte para ganhar dinheiro Natanael logo aprendeu a profissão.

Residindo na sede do município teve a oportunidade de conhecer Suzete Amaro de Sousa, que na época habitualmente vinha à cidade e ficava na residência de uma de suas irmãs, Raimunda Barros, que coincidentemente morava vizinho a casa de Sebastião Alves da Silva, pai de Bobô.

Dentro de pouco tempo e depois de algumas cartas o flerte tornou-se algo mais sério, em 30 de maio de 1968, diante do juiz Dr. Luís Feitosa Noronha, foi oficializado o matrimônio.

Em 1º de junho de 1977, na gestão do Prefeito Benjamim Alves da Silva, foi contratado como artífice de obras da Secretaria de Obras Viação e Agricultura da Prefeitura Municipal de Boa Viagem.

Em 27 de abril de 1989, através da Portaria nº 86, novamente na administração do Prefeito Benjamim Alves da Silva, recebeu uma promoção dentro dos quadros do serviço público, passou a ser o encarregado da oficina mecânica.

Em 1991, com base no Decreto nº 126 e obedecendo ao inciso II do Artigo 37 da Constituição Federal, foi realizado o concurso para provimento de 490 cargos e emprego no quadro de pessoal do poder executivo municipal, até essa época os únicos concursos realizados no município tinham por objetivo contratar professores.

Pela Constituição Federal de 1988 o servidor público quem tinha mais de cinco anos de serviço já tinha conseguido a sua estabilidade funcional, quem tinha menos teria de se submeter ao concurso.

Surgiu então à grande oportunidade dos funcionários municipais contratados passarem a efetivação, deixariam de ser celetistas e passariam para o regime estatutário engajando-se assim definitivamente no serviço.

O concurso público municipal foi dividido em duas fazes, a primeira, de prova de conhecimentos, aconteceu nos dias 16 e 17 de fevereiro na Escola de 1º e 2º Graus Dom Terceiro e no Edifício Governador Virgílio Fernandes Távora, sede da administração pública municipal.

A segunda etapa ocorreu nos dias 23 e 24 de fevereiro quando foi atestada a aptidão dos candidatos aprovados. Natanael, mesmo sem precisar se submeter ao concurso, dada a sua experiência comprovada, foi admitido no serviço com louvor. De simples contratado passou a funcionário efetivo na função de marceneiro.

Simpático e humilde reunia qualidades que todos admiravam. Amava profundamente a sua família e tinha uma verdadeira paixão pelo Fortaleza Esporte Clube. Em dias de jogo era comum ver-lhe vibrando com o rádio ao pé do ouvido torcendo pelo leão do Pici.

Consciente de seu papel como cristão afirmava categoricamente que só receberia o batismo quando conseguisse vencer o vício do fumo, hábito ganho na mocidade e que muito entristecia os seus pais.

Reuniu forças, abandonou o vício e recebeu o batismo no templo da Igreja Evangélica Boa-viagense em 18 de abril de 1999 pelas mãos do Rev. Ezequiel Fragoso Vieira Júnior.

Em 20 de outubro de 2006, pouco depois das 17 horas, na capital do nosso Estado, faleceu aos 62 anos de septicemia, infecção respiratória e insuficiência renal deixando viúva e duas filhas. Seu corpo foi velado no templo da igreja que o recebeu como membro e em seguida foi sepultado no mausoléu da família.

Em sua memória, em 19 de dezembro de 2007, através da lei nº 985, na administração do Prefeito José Vieira Filho, um dos logradouros do Bairro Vila Azul recebeu a sua nomenclatura.