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José Vieira de Lima nasceu no Município de Catolé do Rocha, no Estado da Paraíba, no dia 28 de agosto de 1896, era filho de Quintiliano Vieira de Lima e de Felisbela Vieira de Freitas. Para falarmos de sua existência é de suma importância que compreendamos alguns dos fatos que precederam a sua ligação com o nosso município.
Como sabemos a vida do nordestino está fortemente ligada ao fenômeno natural das secas, nossa região é conhecida em todo o país, senão no mundo, pelos constantes deslocamentos de sua população, que muitas vezes, por falta de opção, buscam refúgio nos grandes centros do país. Preocupados com isso, durante muito tempo, nossos governantes colocaram como pauta de suas ações a solução desse grave problema. Muito já se fez e vem se fazendo, ao longo dos anos, para amenizar o sofrimento da população nordestina brasileira.
Entre os Estados do Nordeste a Paraíba é um dos menores, mas, em compensação, era um dos mais populosos, possuía uma alta densidade demográfica e uma pequena área territorial. Muitos paraibanos, a partir do final do século XIX, saíram do seu Estado arriscando conseguir encontrar um lugar melhor para viver.
Desde o final da República Velha o Governo Federal tentava amenizar os efeitos da desigualdade social entre as regiões de nosso país. Ambicionávamos seguir o exemplo de nosso grande “irmão” do Norte, os Estados Unidos da América, que conseguiu a façanha de unir o oceano Atlântico ao Pacífico através da estrada de ferro.
O Brasil traçava planos de ligar todas as suas regiões através da malha ferroviária, o trem seria o condutor de nosso desejado progresso.
Em 1919 houve uma feroz estiagem no sertão nordestino. Esse fato motivou ao jovem José Vieira de Lima a aventurar-se pelo Brasil em busca de trabalho, desejava conhecer o Estado do Pará e o famoso rio Amazonas.
Movido pelo interesse de fazer fortuna saiu de sua terra natal e foi para São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, no intuito de embarcar no trem que seguia para Fortaleza, no Ceará, na intenção de encontrar um primo, sobrinho de sua mãe, que era coletor da alfândega no porto, e que, imediatamente, o embarcaria em um navio para o destino previamente desejado.
Meu pai, José Vieira de Lima, era um paraibano muito tranquilo e calmo que chegou a Boa Viagem, vindo de Catolé do Rocha, no Estado da Paraíba, pelos idos de 1921. Trabalhando na antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Chegou a Boa Viagem trabalhando como agrimessor num grupo de servidores que estudavam uma estrada que deveria ser construída ligando o Município de Tamboril ao Município de Boa Viagem. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 27-28)
No Pará, durante dois anos, viveu na cidade de Santarém, a Pérola do Tapajós, até que, em 1921, não sabemos por qual motivo, resolveu retornar de navio de Belém para o Ceará.
Em Fortaleza decidiu passar novamente na casa de seu primo, que era localizada na Vila Romero, nº. 71, Centro, aonde em seguida tomaria condução para a casa de seus pais no interior paraibano.
Lembramos que, embora tenha nascido em Catolé do Rocha, José Vieira de Lima tinha fortes ligações com o Estado do Ceará. Muitos anos antes o seu bisavô, José Alexandre de Freitas Filho, que era natural da região da serra do Baturité, havia sido acusado de cometer um crime e por conta disso migrou com parte de seus filhos para o Estado da Paraíba e lá encerrou os seus dias.
Em Fortaleza, depois de alguns dias hospedado, enquanto aguardava o transporte para a sua terra natal, encontrava-se na rua observando as novidades do comércio local quando foi surpreendido por um assalto, perdeu toda a fortuna que foi ganha em sua aventura no Norte.
Sem dinheiro, triste por perder as suas economias, solicitou um empréstimo ao seu primo para que pudesse retornar para a casa de seus pais. O dinheiro emprestado seria devolvido posteriormente quando chegasse à Paraíba através de uma carta.
Seu primo, José Carneiro Neto, mais conhecido como Dé Carneiro, era homem influente, possuía prestígio e acesso direto ao Dr. Justiniano de Serpa, Governador do Ceará.
Na época o Governo do Estado estava realizando diversas obras com o intuito de amenizar o problema da seca e estava precisando de pessoas corajosas e disponíveis para as frentes de trabalho no sertão. José Carneiro fez-lhe a proposta de arrumar-lhe um emprego e a oferta foi aceita sem hesitação.
No inicio da década de 1920 o Município de Boa Viagem não sonhava em possuir uma estrada com manta asfáltica, o acesso a sua sede, em todas as direções, era feito através de estradas carroçáveis. Para se ter uma idéia Carvalho Filho (2008: 52) nos informa que, nessa época, “a viagem entre Boa Viagem e o Quixeramobim era feita em dois dias”.
Pensando nisso o Governo Federal, através do Instituto Federal de Obras Contra as Secas, o IFOCS, equivalente ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o DNOCS, em nossos dias, e em parceria com o Estado, verifica a possibilidade de ampliar a estrada de ferro que saia da cidade do Quixeramobim e se estenderia até o Município de Tamboril. Entre as duas estações o Município de Boa Viagem seria uma parada certa.
O trem facilitaria o transporte de nossas riquezas, escoaria a produção de algodão e de outras sementes para a capital, Fortaleza. Havia ainda, por conta das secas, uma grande quantidade de reservatórios de água sendo construídos pelo interior do Estado.
Costumeiramente o governo enviava equipes de técnicos no intuito de fazer estudos e verificar a viabilidade desses projetos. Entre esses técnicos enviados ao sertão encontrava-se José Vieira de Lima, que trabalhava no ofício de agrimensor, equivalente a topógrafo em nossos dias.
Quando estava no Município de Tamboril fazendo os estudos topográficos para a instalação da estrada de ferro foi enviado pelo seu superior a fazer estudos para o represamento de um riacho e a futura construção de um açude em Boa Viagem na propriedade de um próspero agropecuarista.
Nessa oportunidade ficou hospedado, juntamente com toda a sua equipe, na fazenda Triunfo, residência de Teófilo da Costa Oliveira, conhecido como Teófilo Amaro. Dessas paradas para o descanso surgiu o mutuo interesse entre o visitante e a bela filha de seu anfitrião, Adília Maria de Oliveira.
De início Teófilo Amaro e a sua esposa, Francisca Juliana da Conceição, não aprovavam o namoro, temiam que o seu misterioso visitante fosse casado ou um jagunço ou quem sabe um desertor do cangaço, algo comum na época.
José Vieira de Lima era um jovem bem afeiçoado, de boa aparência, costumava sempre andar bem vestido. Certo dia, não sabemos se por esquecimento ou de propósito, deixou o seu paletó no encosto de uma cadeira na casa de seu anfitrião, que logo foi revistado pela sua curiosa futura consorte.
Em um dos bolsos do paletó foi encontrada a prova tão desejada, uma carta enviada da Paraíba que fora escrita por sua mãe. Sem demoras Adília Maria de Oliveira procurou quem soubesse ler, pois queria saber o teor daquela misteriosa carta, pretendia juntar as provas que confirmassem a boa índole de seu amado.
Feliz pela valiosa descoberta e pelo sucesso de sua astúcia a moça chamou ao seu pai e lhe apresentou a preciosa prova, após a nova leitura, feita por Luzia Amaro, irmã de Teófilo, o namoro foi finalmente permitido.
O casamento foi celebrado no dia 29 de outubro de 1922 diante do Monsenhor José Cândido de Queiroz Lima e de toda a comunidade na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Alguns dias antes o casal recebeu como presente uma propriedade que serviria para a criação de gado e o cultivo da terra. Teófilo Amaro não queria que a sua filha partisse e sim que o seu genro se estabelecesse no município.
Poucos dias depois da celebração de matrimônio, já em 1923, o novo casal viajou para o Riacho dos Cavalos, José Vieira de Lima tinha interesse em apresentar a sua esposa para os seus pais e também compartilhar das aventuras vividas por ele durante os últimos anos.
Nessa ocasião não deixou de informar aos seus pais das vantagens e da beleza das terras do Ceará, depois de algumas semanas em meio aos seus familiares decidiu retornar para a sua fazenda no intuito de dar continuidade a sua vida, até que, em 1924, tem conhecimento do interesse de seus pais virem morar também na Jóia do Sertão Central.
Durante anos em sua propriedade foi um dos grandes produtores de algodão e milho de nossa região, possuía um invejável rebanho bovino e caprino que lhe davam uma abundância de leite e derivados, mas a fartura de posses não se comparava à bela e valiosa família que construiu com a sua esposa.
Em 1945, depois de anos habitando no Ceará, decidiu entrar na vida pública pleiteando um mandato como vereador, mesmo sabendo dos riscos que corria.
A grande maioria das administrações anteriores, muitas vezes, por falta de recursos, por despreparo dos administradores para o cargo ou por falta de aptidão para as causas populares, pouco realizaram. Ficavam sempre na mesmice, no “feijão com arroz” como de diz. Perdiam boa parte do tempo para atender aos problemas de delegacia, resolver questões de terras que envolviam proprietários rurais, cobrar impostos até de cancela nas estradas e fazer politicagem de baixo nível, que nada rendia para o futuro do município. Fazer política aqui era coisa perigosa. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 52)
Na ocasião de sua decisão a sua posição política não era a das mais fáceis. Nessa eleição, juntamente com José Inácio de Carvalho, apoiou João Barbosa Lima, o Nóca Barbosa, candidato da União Democrática Nacional, a UDN, que não tinha a simpatia da família Araújo, até então a família que dominava o cenário político do município.
Em 28 de dezembro de 1946, conversando sobre as projeções políticas da eleição que se aproximava na residência de José Inácio de Carvalho teve a triste sorte de servir de testemunha de um bárbaro crime que até hoje deixa mágoa no coração de alguns boa-viagenses:
Com os depoimentos da viúva da vítima, da mulher de Caledônio, da filha de Caledônio, de José Vieira de Lima, de Fausto Costa e mais cinco amigos de José Inácio, o major Leite representou o Dr. Lourival Soares, Juiz de Direito, requerendo a prisão preventiva para o autor material, Francisco Pereira Lima e para os autores intelectuais Delfino de Alencar Araújo e Aluísio Ximenes de Aragão. (MOTA, 1995: p. 71)
Apesar do cruel assassinato o resultado do pleito eleitoral não foi outro, em 07 de dezembro de 1947, após uma acirrada campanha, as urnas declararam o seu candidato a prefeito como derrotado e Manoel Araújo Marinho, candidato do Partido Social Progressista, o PSP, como novo prefeito de Boa Viagem.
José Vieira de Lima conseguiu ser eleito para a Câmara municipal, mas desde cedo sabia que o seu mandato seria de oposição ao novo gestor, os desafios não lhe desanimaram e logo pôde colher os frutos de suas posições.
Para o pleito de 03 de outubro de 1950, ainda pela UDN, exercendo um mandato diferenciado dos demais, foi indicado para representar a sua bancada no executivo contra a candidatura do coletor estadual Aluísio Ximenes de Aragão, candidato do PSP.
Nesse pleito os candidatos a prefeito não possuíam vice e ele enfrentaria a corrente política que tinha em suas mãos a máquina administrativa e uma grande e poderosa família.
Em 1950, meu pai era candidato a Prefeito e sofreu várias ameaças, tais como: altas horas da noite bateram nas porteiras, anexas à casa da fazenda. Certamente, eles esperavam que meu pai saísse no escuro, pensando que os animais estivessem fugindo do curral, mas isso não aconteceu. Então eles bateram em uma janela da casa. Meu pai estava armado, dentro da casa; minha mãe acendeu a lamparina e os bandidos fugiram. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 52)
A empreitada dessa eleição foi gigantesca, sem dinheiro e apoio suficiente não conseguiu obter êxito, dos 3.488 eleitores recebeu a preferência de apenas 1.314, Aluisio saiu vitorioso com 2.031 votos. Durante quatro anos, embora sem mandato, permaneceu firme em sua posição de adversário, mas sempre buscando fazer uma oposição inteligente.
Em 1954, ainda pela UDN, entrou novamente na disputa por uma das nove vagas do legislativo municipal. Na ocasião o seu partido coligou-se com o Partido Social Democrático, o PSD, e juntos elegeram a prefeito o agropecuarista Delfino de Alencar Araújo.
Em Boa Viagem a coligação governista era representada pela família “Araújo” sob a liderança do ex-prefeito Manuel Araújo Marinho (PSD) e pelo PSP, presidido pelo prefeito Aluísio Ximenes Aragão. Enquanto as oposições coligadas seguiam o vereador José Vieira de Lima. (MOTA, 1995: p. 11)
Em 1958 o cenário político sofreu algumas modificações, antigos adversários passaram para o campo aliado no intuito de eleger o Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, advogado que foi candidato pelo PSD e era filho de Manuel Araújo Marinho, ex-prefeito do município e importante cabo eleitoral.
Em Boa Viagem, o PSP era liderado pela família Araújo e pela família Ximenes de Aragão. A UDN por José Vieira de Lima. (MOTA, 1995: p. 60)
Nessa eleição novamente o seu nome retornou a Câmara municipal, o povo soube retribuir a confiança a quem os representou durante tantos anos, até que, em 1962, os ventos da política local começam a tomar um novo movimento, dessa vez com um sopro diferente. A paisagem política recebeu novos atores e um deles era o seu filho, José Vieira Filho, o Mazinho.
Foi uma porta aberta para minha candidatura a Vice-Prefeito do município no ano de 1962. Meu pai, que já exercera três mandatos de vereador e em 1950 disputou o cargo de Prefeito Municipal, perdendo para seu compadre Aloísio Ximenes de Aragão, enfrentava alguns descontentamentos dentro do seu partido e estava sem ânimo para continuar na política. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 34)
Em 07 de outubro de 1962 finalmente aconteceu a eleição que sacramentalizou a vitória para prefeito do Dr. Manuel Vieira da Costa, o Nezinho, candidato da UDN que fazia oposição ao governo municipal. Na ocasião, dessa vez pelo PSD, José Vieira de Lima consegue novamente a sua cadeira na Câmara Municipal e contempla a vitória de seu filho e herdeiro político, José Vieira Filho, para o mandato de vice-prefeito.
Houve a eleição e, quando apuraram os votos, o Dr. Manuel Vieira da Costa (Nezinho) venceu o Sr. Deodato por uma diferença de 226 votos. Houve mais de 800 votos nulos do Sr. José Vieira Filho, e consegui vencer o Sr. Aluísio com 77 votos a mais de diferença. Valeu a vontade do povo, sufragando os candidatos, Nezinho e Mazinho, dois primos carnais, embora de partidos e palanques opostos. (VIEIRA FILHO, 2008: p. 37)
Essa alegria no campo político vem a contrastar com a profunda tristeza acontecida anos antes, em 15 de março de 1960 ele perde a sua companheira e amiga de tantos anos.
Em 02 de outubro de 1962, depois de anos de solidão, agora maduro e com 66 anos de idade contrai núpcias com a jovem Raimunda Iza Fernandes Lemos, de apenas 37 anos, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem em uma celebração dirigida pelo Pe. José Patrício de Almeida e contando com a presença de todos os seus filhos.
Após o casamento, sendo perturbado por alguns problemas de saúde, decidiu mudar-se definitivamente para a sua residência que era localizada na esquina das ruas José Leal e Antônio Domingues, nº. 323, na sede do município, aonde teria maiores possibilidades de assistência médica até que, em 27 de março de 1967, em Fortaleza, vem a óbito vitima de equizema.
Em sua memória, na administração do Prefeito José Vieira Filho, projeto do Vereador Samuel Alves da Silva, através da lei nº 127, de 18 de abril de 1969, foi colocado um busto e o nome de Praça Vereador José Vieira de Lima em um dos principais pontos da sede do município.

Essa praça, por descuido da administração municipal, tendo em vista que poucos possuem conhecimento de sua primeira nomenclatura, projeto do Vereador Antônio Tupinambá de Araújo, recebeu o nome de Praça Capitão José Ribeiro através da lei nº 80, de 28 de maio de 1966, na administração do prefeito Cícero Carneiro Filho e não teve o seu nome alterado por força de lei.

Foram feitas ainda algumas outras homenagens ao seu nome, uma delas através da lei nº 139, de 12 de março de 1970, que deu nome a uma das ruas da sede como também através da lei nº 451, de 06 de outubro de 1987, que deu a nomenclatura ao Parque de Exposições Agropecuárias José Vieira de Lima, todas na administração do Prefeito José Vieira Filho.
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